Wednesday, November 26, 2008

Viagem ao centro da Terra – O filme (Journey to the Center of the Earth, EUA, 2008, 96 min.)

Direção: Eric Brevig
Roteiro: Michael Weiss, Michael D. Weiss, Mark Levin e Jennifer Flackett, baseado em livro de Júlio Verne
Elenco: Brendan Fraser, Josh Hutcherson e Anita Briem

A tecnologia 3D, aquela que dá uma sensação de interatividade do telespectador com a película a ser exibida e que precisa daqueles óculos especiais para ser sentida, teve o seu grande debut em 2008. Porém, a escolha para essa estréia não poderia ter sido mais infeliz.
VIAGEM AO CENTRO DA TERRA – O FILME (mania que esse povo tem de colocar esse complemente desnecessários) é uma releitura do original de Júlio Verne e da primeira versão datada de 1959. Embora muitos digam que é uma refilmagem, eu discordo já que a premissa deste filme de 2008 parte de uma idéia válida: incentivar a geração atual ler o livro de Verne.
Brendan Fraser faz um geólogo que encontra, no meio dos objetos de seu irmão desaparecido, anotações em uma edição do clássico verniano Viagem ao Centro da Terra. Como as anotações casam com sua pesquisa sobre abalos sísmicos, o geólogo desconfia que o irmão descobriu - assim como Júlio Verne - um caminho para o núcleo do planeta. Junto com seu sobrinho e na companhia de uma guia islandesa, o trio parte em viagem rumo ao desconhecido e que promete muita aventura.
Promessa que não se cumpre, óbvio. Primeiro que Brevig não é diretor. Esse é seu filme de estréia e o cara, anteriormente, fora supervisor de efeitos especiais de obras como O DIA DEPOIS DE AMANHÃ e A ILHA. Isso diz muito já que ele se esquece de uma coisa básica de um filme: o conflito que gerará o interesse na obra. Ele se concentra apenas em como explorar a tecnologia 3D. Desta maneira, as cenas só existem para justificar o orçamento em cenas tolas e idiotas, que não empolgam em momento algum.
Quando eu falo que as cenas de ação não empolgam, é realmente verdade. Os diálogos são compostos de frases de efeito que não possuem uma razão de ser e a construção das pretensas cenas de aventura deixam aquela sensação de que poderia ter sido melhor explorado.
Não pense você que a obra de Julio Verne resume-se naquele conceito boboca que o filme apresente. No livro, há conflito entre cientistas rivais, há drama, há aventura legítima. O trio de protagonistas do filme não sustentam uma única cena e os possíveis conflitos são rapidamente resolvidos em trinta minutos de projeção.
Sinceramente, a tecnologia 3D poderia ter sido melhor lançada e escolhido um filme que realmente justificasse tal uso.

O Nevoeiro (The Mist, EUA, 2008, 126 min.)

Direção: Frank Darabont
Roteiro: Frank Darabont, baseado em livro de Stephen King
Elenco: Thomas Jane, Marcia Gay Harden, Laurie Holden, William Sadler e Jeffrey DeMunn

Tenho que confessor que não sou um dos maiores apreciadores do gênero terror. Algo em ver pessoas sendo dilaceradas vivas enquanto a platéia ia ao delírio sempre me incomodou. Isso fez com que eu mantivesse uma distancia segura do gênero.
No entanto, de uns anos para cá, tenho vencido essa barreira. O principal motivo é enxergar as reais motivações de um longa de terror, algo que vá além de mero derramamento de sangue. Na imensa maioria das vezes, um fiapo de história é pretexto para colocar mulheres seminuas sendo alvo de ataques de criaturas sobrenaturais ou assassinos enfurecidos. Vez por outra, me deparo com um uma trama poderosa, que utiliza o terror apenas como metáfora de outros horrores maiores ainda.
É o que acontece com o filme O NEVOEIRO, terceira adaptação que Darabont faz da obra de Stephen King (UM SONHO DE LIBERDADE e A ESPERA DE UM MILAGRE são dele). Cheguei a esse filme por indicação de um professor da faculdade e de um colega de classe.
Na história, após uma violenta tempestade devastar a cidade de Maine, David Drayton (Thomas Jane) e Billy (Nathan Gamble), seu filho de 8 anos, correm rumo ao supermercado, temendo que os suprimentos se esgotem. Porém um estranho nevoeiro toma conta da cidade, o que faz com que David, Billy e outras pessoas fiquem presas no supermercado. Logo David descobre que há algo de sobrenatural envolvido e que, caso deixem o local, isto pode ser fatal.
A grande força do filme não está nas criaturas escondidas sob a névoa, que por sinal são bem toscas em comparação com seres melhores construídos digitalmente em outros longas. No entanto, a genialidade de King (sim, eu o considero um gênio), e que foi plenamente captado por Darabont, está na origem desse mal. Esses monstros não vieram do espaço ou de outra dimensão, mesmo o roteiro dizendo isso. Na realidade, todos eles habitam o interior das pessoas, que muitas vezes tentam exorciza-lo e são levadas a tomarem atitudes inesperadas.
O supermercado de O NEVOEIRO torna-se metáfora da sociedade. Assuntos como política, organização social e religião são discutidos de forma poderosa. Na ausência de uma ordem pré-estabelecida, as pessoas viram bichos no escuro, sem moral ou ética, seguindo aquele que lhes apresentar uma solução, que nem sempre é plausível (José Saramago sempre propõe isso em suas obras. ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA é o exemplo mais evidente). Ao perceber isso, o filme assume um importante papel na discussão sobre os valores humanos, especialmente aqueles que incentivam o fanatismo e o fundamentalismo religioso, induzindo pessoas a atos bárbaros contra o próximo.
O elenco está afiado e todos desempenham brilhantemente seu papel. Destaque para Marcia Gay Harden e sua atitude de possível profeta e enviada de Deus. Confesso que nunca gostei do trabalho da atriz, achando-a sempre canastrona. Mas aqui ela possui um grande papel.
Por essas e outras, é que O NEVOEIRO é um filme indispensável nesse mundo capitalista pós-11 de setembro. E detalhe, possui um final acapachante e aterrador, destacando os rumos sem esperança que muitos podem tomar. No entanto, ainda há uma luz no fim do túnel e ela nem sempre é um trem.

Monday, November 24, 2008

O Incrível Hulk (The Incredible Hulk, EUA, 2008, 114 min.)

Direção: Louis Leterrier
Roteiro: Edward Norton e Zak Penn, baseado em personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby
Elenco: Edward Norton, Liv Tyler, Tim Roth e William Hurt.

Aos detratores da obra de Ang Lee, eis que os estúdios Marvel [sim, eles viraram estúdios] relançam seu Gigante Esmeralda nesse filme de pancadaria e ação chamado O INCRÍVEL HULK [coloquem aquelas musiquinhas climáticas].
A história: Vivendo escondido e longe de Betty Ross (Liv Tyler), a mulher que ama, o cientista Bruce Banner (Edward Norton) busca um meio de retirar a radiação gama que está em seu sangue. Ao mesmo tempo ele precisa fugir da perseguição do general Ross (William Hurt), seu grande inimigo, e da máquina militar que tenta capturá-lo, na intenção de explorar o poder que faz com que Banner se transforme no Hulk.
Conhecido por filmes como CARGA EXPLOSIVA [gente, eu adoro esse filme], Leterrier não decepciona nas cenas de ação. Só para citar um exemplo, a seqüência de abertura que mostra a perseguição de Banner numa favela carioca [sim, eles filmaram no Brasil em uma favela carioca] é de tirar fôlego. Um detalhe: toda vez que o ritmo do longa está lento, prepare-se porque a cena seguinte será de ação desenfreada. Confesso que a luta final entre os monstros verdes eu achei longa demais [quase trinta minutos] e, depois de incontáveis golpes, eu fiquei cansado. Aliás, o filme todo me cansou.
Os efeitos especiais, tão criticados na época de Lee, funcionaram bem dessa vez. O Hulk parece mais crível, mas ainda um homem que fica verde quando está com raiva não é uma coisa real, né não?
Esqueça todo o drama psicológico e as possíveis tormentas que Banner passa. Norton até quis desenvolver um pouco mais esse traço do Hulk [tanto que é creditado como roteirista], mas algumas cenas filmadas que mostram esse lado foram descartadas na mesa de edição. Norton é conhecido por interferir diretamente nos trabalhos que escolhe, mas dessa vez teve um embate direto com um grande estúdio e acabou levando a pior. [O pôster que adorna essa matéria reflete bastante essa visão dual entre diretor e o seu principal astro].
Naturalmente, o filme foi um sucesso estrondoso de bilheteria e fará uma carreira semelhante em DVD. Culpa desses adolescentes que veneram um filme de ação descerebrado em detrimento de uma diversão que preza pela inteligência.
Sem dúvida, com O INCRÍVEL HULK, perdi mais um pouco do meu precioso tempo.

Hulk (The Hulk, EUA, 2003, 135 min.)

Direção: Ang Lee
Roteiro: James Schamus, baseado nos personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby
Elenco: Eric Bana, Jennifer Connely, Nick Nolte, Sam Elliot e Josh Lucas.

Não sei o que acontece com as pessoas ao verem este filme e dizem que se trata de uma porcaria, ruim, péssimo, e que a escolha por Ang Lee como diretor foi sofrível... Também é irritante ouvir outros usarem como argumentos os efeitos especiais, o Hulk soando falso e irreal... E mais intrigante ainda é falarem que a trama é boba, a narrativa é lenta e a história é ridícula.
Resolvi rever HULK depois que vi O INCRÍVEL HULK [que eu resenharei na seqüência]. E, assim como na primeira vez que tinha acompanhado a trama do Gigante Esmeralda criada pelo diretor taiwanês, gostei muito.
Vamos à sinopse: Bruce Banner (Eric Bana) é um cientista que teve problemas em sua infância: ele foi adotado e passou por uma experiência traumática após a morte de seus pais, a qual não lembra de forma alguma. Juntamente com ele trabalha Betty Ross (Jennifer Connelly), sua grande paixão. Ambos trabalham em um projeto que envolve a reconstituição de tecidos através da radiação gama, um projeto o qual o Exército está bastante interessado. Ao consertar o gammasphere, aparelho usado para aplicar a radiação gama em animais, um dos cientistas do projeto o aciona acidentalmente. Em uma tentativa desesperada de salvar o amigo, Banner se atira defronte o gammasphere e absorve a radiação gama lançada. Inexplicavelmente o acidente não o mata, fazendo com que permaneça durante algum tempo no hospital sob observação. É quando a reaparição de seu pai biológico, o qual considerava morto, revela segredos sobre o passado de Bruce Banner o qual nem ele mesmo conhecia, ao mesmo tempo em que precisa lidar com estranhas modificações em seu corpo a cada vez que fica com raiva.
Dizer que a escolha de Ang Lee foi infeliz e que ele produziu uma porcaria é exagero e, no mínimo, argumentos de quem não consegue diferenciar gêneros cinematográficos. Todo mundo diz que esperava mais ação. No entanto, Lee não produziu um filme deste gênero. Antes, ele produziu um drama. Sim, o HULK de Lee é calcado no drama, pontuado por algumas cenas de ação. E, no quesito drama, ele consegue construir um ótimo longa, pontuado por ótimos diálogos e um aprofundamento assombroso na psicologia das personagens. Aliás, em seus filmes, Lee tem essa investigação profunda sobre a psique de seus protagonistas, constrói um estudo sobre a repressão humana e como esta tem desdobramentos na vida deles.
Outro ponto é dizer que o Hulk é irreal. A mim, pareceu-me bastante crível o monstro construído em computação gráfica e serviu bem à proposta do filme. Quanto a soar falso e irreal, convenhamos: um homem tornar-se verde e ultraforte quando fica com raiva já é inverossímil o suficiente para mim. O que está em jogo não é a maneira que o Hulk se apresente, mas a personificação daquele monstro interior que todos nós carregamos e que, de algum jeito, encontrará meios de se manifestar.
E por último é dizerem que o filme tem uma trama boba e história frouxa. Nada está tão longe da realidade. O roteiro é bem amarrado e flerta com as histórias clássicas de monstros da Universal. É fiel aos quadrinhos, especialmente a vertente que explora as regiões abissais da mente de Bruce Banner, penetrando nas feridas psicológicas que dividem a personalidade do cientista.
Menção honrosa para as atuações. Eric Bana entrega um Hulk atormentado e deprimido [a fixação de Lee pelo olhar doentia do protagonista é emblemática]. Jennifer Connely arrasa como a grande paixão de Banner. E Nick Nolte... bem, este é um astro a parte.
Destaque para a edição do filme, claramente inspirada nos quadrinhos e incrivelmente inovadora. E também para a trilha sonora penetrante que pontua o filme nos momentos mais oportunos.
Lee constrói a sua visão sobre Hulk. É um artista que conseguiu imprimir suas marcas e estilo em um personagem fascinante. Um filme fantástico que, muito mais que um filme de super herói, é uma aula de como filmar a mente humana.

Wednesday, November 19, 2008

Crepúsculo dos deuses (Sunset Boulevard, EUA, 1950, 110 min.)



Direção: Billy Wilder
Roteiro: Charles Brackett, D.M. Marshman Jr. e Billy Wilder
William Holden, Gloria Swanson, Erich von Stroheim, Nancy Olson, Fred Clark, Lloyd Gough, Jack Webb e Cecil B. DeMille.

“Pronto, Sr. DeMille, eu estou pronta para o meu close-up”.
Não importa quantas vezes eu assista a CREPÚSCULO DOS DEUSES, eu sempre vou ficar em êxtase quando Norma Desmond proferir essas palavras ao descer as escadas de sua mansão e a câmera enquadrar em seu rosto insano.
Não sei o que acontece, mas este filme de Billy Wilder é extremamente importante para mim. Tenho uma identificação com a personagem de Gloria Swanson que chega a me deixar incrivelmente espantado. Como minha personalidade é bastante semelhante com a da atriz decadente, fico com receio de, na velhice, acabar me transformando nela.
O filme é um dos mais importantes de todos os tempos e mostra como a indústria cinematográfica pode ser cruel e desumana com aqueles que não lhe são mais úteis. Metáfora para a vida? Com certeza, ainda mais em uma época onde tudo é descartado e o prazo de validade é cada vez mais curto.
Sinopse: No início um crime é cometido e uma voz em off começa a narrar que tudo começou quando Joe Gillis (William Holden), um roteirista fugindo de representantes de uma financeira que tentava recuperar o carro por falta de pagamento e se refugia em uma decadente mansão, cuja proprietária, Norma Desmond (Gloria Swanson), era uma estrela do cinema mudo. Quando Norma tem conhecimento que Joe é roteirista, contrata-o para revisar o roteiro de Salomé, que marcaria o seu retorno às telas. O roteiro era insuportável, mas o pagamento era bom e ele não tinha o que fazer. No entanto, o que o destino lhe reservava não seria nada agradável.
Em 1950, seria difícil imaginar um filme que apresentasse uma Hollywood tão desglamourizada em um roteiro tão corrosivo. O diretor austro-húngaro foi corajoso ao expor a podridão da indústria, que joga fora aquele astro que não lhe serve mais. O mais fascinante de tudo, como já disse, é perceber a maneira precisa com que Billy Wilder quebrou com essa idéia inicial de apenas entreter para injetar doses cavalares e arrebatadoras de crítica social e um sarcasmo que fazia do cinema um meio de comunicação definitivamente importantíssimo e influente. Não que o diretor tenha sido pioneiro. Orson Welles também era sinônimo de inovação, vide seu soberbo Cidadão Kane (1941) e a sua famosa transmissão de rádio em 1938. Porém, o que Wilder conseguiu foi confrontar-se exatamente com o próprio conceito de glamourização que envolvia a corporação para a qual trabalhava e que dominava monstruosamente toda Hollywood, tanto como pessoa física quanto jurídica. E que, curiosa ou propositalmente, envolvia esta sua obra majestosa que talvez funcione como um profundo murro na cara para os inabaláveis ostentadores dessa pompa exagerada e imbecil que é a “fama a qualquer preço” ou como um sarcástico alguém que ri com sagacidade na e da cara destes seres plásticos.
Swanson estremece profundamente os alicerces dessa Hollywood alegórica e ilusionista, com sua Norma Desmond agindo de forma furiosa e macabra, vitimada por um sistema alienador que funciona como fabricante de astros, e não como um lapidador de talentos. Quando assiste melancolicamente a um dos seus filmes mudos juntamente com o roteirista Gillis (Queen Kelly, curiosamente conduzido pelo também diretor Erich von Stroheim) em certo momento da fita, fica transparecido na sua face um desgosto misturado a uma insanidade lôbrega que afeta, como uma escavadeira, as camadas mais profundas do cérebro. [ela foi indicada ao Oscar naquele ano, concorrendo com as deusas de “A Malvada”, Bette Davis e Anne Baxter. Por incrível que pareça, ganhou a insossa Judy Holyday, por “Nascida ontem”. Swanson contentou-se com o Globo de Ouro da categoria dramática]. Glória foi uma estrela do cinema mudo e que tal como as suas colegas passou as mesmas dificuldades na transição para o sonoro e à semelhança da sua personagem também ela tinha caído no esquecimento. Há uma magnífica cena em que Norma faz uma partida de bridge com alguns avtores veteranos [Buster Keaton, Anna Q. Nilsson ou H.B. Warner].
É um filme que mexe muito comigo. Sinceramente, tenho muito receio de ser alguém que passará o resto da vida aguardando um close-up final e este vier carregado da dor e da insanidade que abateu-se sobre Norma Desmond.

Tuesday, November 18, 2008

O dia depois de amanhã (The day after tomorrow, EUA, 2004, 124 min.)

Direção: Roland Emmerich
Roteiro: Roland Emmerich e Jeffrey Nachmanoff, baseado em estória de Roland Emmerich
Elenco: Dennis Quaid, Jake Gyllenhaal e Ian Holm.

Nos últimos dois posts eu falei sobre filmes do gênero épico e como estes seguem uma determinada fórmula, variando apenas alguns estilos que não chegam a afetar a estrutura principal. Outro gênero que segue à risca uma fórmula são os filmes-catástrofe.
Coqueluche nos anos 70, os filmes-catástrofe seguiam uma matemática bem simples: o espectador seria apresentado a um grupo distinto de pessoas que, por alguma razão, seriam unidos por uma tragédia de proporções inimagináveis. As mortes dos coadjuvantes de luxo aconteceriam para introduzir algum tipo de emoção, mas no final, tudo terminaria bem. Ah, sempre haveria algum jogo de oposição como pano de funda da tragédia. E as catástrofes eram inúmeras: terremotos, furacões, tsunami, incêndio, enchente, vulcões.
Uma onda de refilmagens de filmes-catástrofe invadiu Hollywood nos anos 2000. E com ela, novas idéias para destruir alguma coisa surgiu também. Foi nesse mote que veio o filme O DIA DEPOIS DE AMANHÃ, que eu re-assisti recentemente.
O filme: A Terra sofre alterações climáticas que modificam drasticamente a vida da humanidade. Com o norte se resfriando cada vez mais e passando por uma nova era glacial, milhões de sobreviventes rumam para o sul. Porém o paleoclimatologista Jack Hall (Dennis Quaid) segue o caminho inverso e parte para Nova York, já que acredita que seu filho Sam (Jake Gyllenhaal) ainda está vivo.
Emmerich é conhecido pelo seu poder de destruição em seus filmes. Só pra ficar em alguns exemplos, INDEPENCE DAY e GODZILLA. Ao entrar no cinema, você terá a certeza absoluta de ver um espetáculo com um som muito alto e muita coisa sendo destruída, de preferência tendo como alvo momentos iconográficos de Nova Iorque.
O filme trabalha com vários temas que servem de pano de fundo para a futura era glacial. O primeiro, e mais evidente, é a relação homem/natureza. Há muito se discute a problemática da atuação do homem na natureza e de todos os malefícios causados. O aquecimento global se não for levado a sério poderá ocasionar situações semelhantes à do filme (claro que não com aquela velocidade, do tipo que em menos de uma semana tudo já está debaixo do gelo). Naturalmente, a conscientização ecológica das pessoas e de seus líderes faz-se necessária.
Um segundo tema, e este eu acho ser o mais pungente, é o da política envolvendo países do Primeiro Mundo versus os do Terceiro. Há algum tempo, estamos acompanhando como é complicado atravessar as fronteiras para o Primeiro Mundo. Vez por outra, somos surpreendidos no noticiário de vários habitantes do Terceiro Mundo sendo deportados devido a uma imigração ilegal. No filme, é a vez dos americanos recorrer à fronteira do México. Embora Emmerich tenha garantido que não pensou nisso, é impossível não notar a fina ironia.
E por último, temos a velha temática familiar onde casal divorciado descobre-se ainda apaixonados e unem-se para recuperar o filho perdido em uma Nova Iorque congelada. O filme concentra-se, em sua maior parte, na jornada de resgate do filho pelo pai ausente e que agora pretende recompensar o tempo.
Obviamente, todos esses temas são abordados com superficialidade, privilegiando o caos ocasionado pelos impressionantes efeitos especial (inclusive indicados ao Oscar da categoria).
As seqüências que eu mais gosto no longa são aquelas passadas na Biblioteca e que conta com um casal de intelectuais. Adoro especialmente quando eles decidem que precisam queimar livros para manterem-se aquecidos e precisam lidar com o desapego a fim de resolverem quais merecerão o fogo.
No fim das contas, O DIA DEPOIS DE AMANHÃ não será o filme que mudará sua forma de ver o mundo e as questões ambientais, mas vai te proporcionar uma ótima diversão por um pouco mais de duas horas.

Monday, November 17, 2008

Rei Arthur (King Arthur, EUA, 2004, 130 min.)

Direção: Antoine Fuqua
Roteiro: David Franzoni
Elenco: Clive Owen, Ioan Gruffuld e Keira Knightley

Hollywood vive uma onda de repaginação de mitos e heróis. Acho que essa coisa toda começou com o BATMAN BEGINS, o que, por sinal, foi um ótimo resultado. Mas nem todas reimaginações das personagens conseguiram resultados favoráveis. Um exemplo disso, foi o que aconteceu com o REI ARTHUR. Ah, cabe lembrar que se trata de um épico.
Como eu já havia escrito na crítica de TRÓIA, épicos são épicos e não há muita variação no estilo. Então, pode esperar trilha sonora que sobe nos momentos dramáticas e permeiam, praticamente, todas as cenas. Haverá uma câmera lenta acompanhando uma luta bem coreografada e sangrenta. O tradicional discurso do general na frente de seu exército. Os berros agudos da tropa que, sinceramente, nunca entendi o real motivo deles. No entanto, o diferencia um épico do outro são os detalhes que compõem a obra. A caracterização e o aprofundamento das personagens, um bom texto e uma certa estilização técnica. Tudo isso falta em REI ARTHUR.
O filme parte da premissa de que esta é a real história do bretão Arthur, que teria dado origem ao mito do rei de Camelot e seus lendários cavaleiros. Arthur (Clive Owen) é um líder relutante, que deseja deixar a Bretanha e retornar a Roma para viver em paz. Porém, antes que possa realizar esta viagem, ele parte em missão ao lado dos Cavaleiros da Távola Redonda, formado por Lancelot (Ioan Gruffudd), Galahad (Hugh Dancy), Bors (Ray Winstone), Tristan (Mads Mikkelsen) e Gawain (Joel Edgerton). Nesta missão Arthur toma consciência de que, quando Roma cair, a Bretanha precisará de alguém que guie a ilha aos novos tempos e a defenda das ameaças externas. Com a orientação de Merlin (Stephen Dillane) e o apoio da corajosa Guinevere (Keira Knightley) ao seu lado, Arthur decide permanecer no país para liderá-lo.
O diretor Fuqua é competente e já provou isso em filmes como DIA DE TREINAMENTO. Mas, neste, ele é apenas uma marionete na mão do produtor Jerry Bruckheimer. O produtor é praticamente o Midas da Hollywood atual e responsável por franquias de sucesso, tanto na TV como no cinema (PIRATAS DO CARIBE e CSI são dele). Com isso, Fuqua teve pouca, ou nenhuma, chance de imprimir sua personalidade ao longa.
O resultado é pífio e desnecessário. Talvez, o único grande momento da obra seja a tão comentada luta sobre um lago congelado. É realmente impressionante e de tirar o fôlego. O resto da película é totalmente esquecível. O velho discurso a respeito da liberdade dos povos funcionou tão bem em CORAÇÃO VALENTE (que eu não gosto, mas isso é por causa do gênero e não pelos méritos da produção), em REI ARTHUR soa falso e desconexo. Não há porque acreditar nisso e não há um embarque na história. Depois de um tempo, até esquecemos que estamos diante do mito de Arthur.
Somente mais uma observação: os atores, até mesmo os mais desconhecidos, não comprometem o longa e entregam interpretação eficientes.
Confesso que foram os 130 minutos mais desperdiçados do meu precioso tempo ultimamente.

TRÓIA (Troy, EUA, 2004, 162 min.)


Direção: Wolfgang Petersen
Roteiro: David Benioff, baseado em poema de Homero
Elenco: Brad Pitt, Peter O'Toole, Eric Bana, Orlando Bloom e Saffron Burrows.

O Oscar para GLADIADOR teve seus méritos. Ressuscitou um gênero há muito abandonado [conhecido como sandália e toga] e conseguiu conquistar fãs no mundo inteiro [eu não estou entre estes], além de inserir imagens da iconografia cinematográfica copiada à exaustão por filmes posteriores [a mãozinho de Russel Crowe nos campos de trigo como metáfora para sua morte é apenas um dos exemplos]. No entanto, teve seu lado ruim. Nem todos os filmes de sandália e toga produzidos depois da produção de Ridley Scott alcançaram o mesmo status. Um exemplo disso é TRÓIA.
A história do filme, muito bem conhecida já que foi contada há séculos nos poemas de Homero, A Ilíada, conta o embate entre Messênia e Tróia. Em 1193 A.C., Paris (Orlando Bloom) é um príncipe que provoca uma guerra da Messência contra Tróia, ao afastar Helena (Diane Kruger) de seu marido, Menelaus (Brendan Gleeson). Tem início então uma sangrenta batalha, que dura por mais de uma década. A esperança do Priam (Peter O'Toole), rei de Tróia, em vencer a guerra está nas mãos de Aquiles (Brad Pitt), o maior herói da Grécia, e seu filho Hector (Eric Bana).
[Pausa para uma memória: me recordo de uma música da Amelinha sobre as mulheres que falava sobre esse guerra e citava Helena como o estopim deste combate. O nome da canção é extenso e curioso: Mulher nova, bonita e carinhosa, faz o homem gemer sem sentir dor].
Ainda me lembro que este filme ganhou uma indicação ao Oscar de Melhor Figurino. Peralá! Melhor Figurino? Cara, eu dei tanta risada ao saber disso. Como é que num filme onde a maior parte do elenco passa com mais de 70% do corpo desnudo pode ser considerado melhor figurino em alguma premiação? É pra rir com a minha cara, né?
A produção de TROIA enfrentou sérias dificuldades. Inicialmente programado para rodar no Marrocos, a ameaça de uma guerra com o Iraque transferiu as locações para o México. Lá, dois furacões assolaram a produção e destruiu boa parte dos cenários. Acho que era um sinal dos deuses para o filme não ser realizado.
Bom, mas o filme não me agradou. Em primeiro lugar porque se distancia muito da obra de Homero. Não sou um daqueles chatos que ficam comparando filme e livro, porque eu entendo que são mídias distintas e, às vezes, algumas concessões precisam ser feitas. Mas nesse caso, o espírito da Ilíada é completamente traído. Nos poemas gregos, a participação dos deuses são mais ativas e não simples menções, como acontece no filme. Aquiles está mais para um guerreiro com anabolizantes e com cabos presos ao corpo para pular daquele jeito do que um guerreiro, filho de deuses e abençoado por eles.
O motivo inicial da guerra, a captura de Helena, é diluído e dá lugar a uma trama de ambição e sede de poder. Não que isto não esteja presente no filme, mas a atenção dada a Helena é pouca em comparação com a importância dada ao livro. As personagens são tratadas com superficialidade e pouco aprofundamento.
Um épico é sempre um épico e não dá pra inovar sem alterar o gênero. Assim, você sempre terá rituais pomposos, frases de efeito, diálogos poderosos, trilha sonora retumbante e grandes cenas de batalha. A diferenciação aparece no detalhe. Acostumado a grandes espetáculos visuais [vide MAR EM FÚRIA], Petersen consegue se sair bem. Usa bem os efeitos especiais sem se deixar seduzir por eles, conduz a câmera com elegância, valorizando os movimentos nas cenas de batalha e segurando firme os momentos de introspecção.
E ele ainda conta com um bom elenco. Brad Pitt transita confortavelmente entre a beleza de um semideus e a necessidade lutar de um guerreiro [mesmo seu Aquiles sendo bem superficial também]. Mas o destaque fica por conta de Eric Bana que transforma Heitor no verdadeiro herói do filme e de Peter O’Toole, ator septuagenário, que tem cara de épico e dá uma verdadeira aula de interpretação, com entonações de voz de arrepiar e olhares bem colocados. Qualquer outro ator fica menor diante deste grande do cinema mundial.
No fim das contas, TRÓIA é um filme esquecível e só faz você passar quase três horas sem pensar em outra coisa. Mas é interessante um filme deste tipo focalizar muito mais na beleza divina de Pitt que nas curvas de Helena.

As crônicas de Nárnia: O príncipe Caspian (The Chronicles of Narnia: Prince Caspian, EUA, 2008, 147 min.)

Direção: Andrew Adamson
Roteiro: Christopher Markus, Andrew Adamson e Stephen McFeely, baseado em livros de C.S. Lewis
Elenco: Ben Barnes, Georgie Henley, Skandar Keynes, William Moseley, Anna Popplewell, Tilda Swinton e Liam Neeson.

O primeiro AS CRÔNICAS DE NÁRNIA, eu assisti nas minhas férias anuais que passei na casa das minhas irmãs. Ainda me lembro do calor insuportável que fazia e do meu refúgio no shopping center. O filme já tinha começado há uns cinco minutos. Apesar da estética de O SENHOR DOS ANÉIS com fundo cristão e voltado para crianças, me encantei com a história dos quatro órfãos que se aventuram nas terras além guarda-roupa e precisam lidar com a Feiticeira Branca.
Numa onda de aquisições livrescas, comprei os sete volumes da série. Ainda não li, confesso. Mas estou esperando o momento oportuno para tal.
Agora, chegou o segundo episódio da saga de Nárnia: O PRÍNCIPE CASPIAN. A principal dúvida a respeito deste filme é uma questão que persegue todas as continuações: é melhor que o capítulo original?
A premissa básica é a seguinte: Um ano depois os irmãos Lucia (Georgie Henley), Edmundo (Skandar Keynes), Susana (Anna Popplewell) e Pedro (William Moseley) retornam ao mundo de Nárnia, onde já se passaram 1300 anos desde sua última visita. Durante sua ausência Nárnia foi conquistada pelo rei Miraz (Sergio Castellitto), que governa o local sem misericórdia. Os irmãos Pevensie então conhecem Caspian (Ben Barnes), o príncipe de direito de Nárnia, que precisa se refugiar por ser procurado por Miraz, seu tio. Decididos a destronar Miraz, o grupo reúne os narnianos restantes para combatê-lo.
A imprensa inglesa comparou este Nárnia com O IMPÉRIO CONTRA ATACA, da saga STAR WARS. Um certo exagero, mas sim, este é Nárnia é melhor que o seu anterior. O diretor Adamson se sai bem em seu primeiro filme live action, após dirigir duas façanhas do ogro verde nas telonas. Entrega um filme coeso, de fácil assimilação narrativa, com ótimas seqüências, efeitos especiais de tirar o fôlego e ação violenta, um tanto quanto demais para um filme supostamente feito para crianças.
A principal qualidade do roteiro está em confrontar os reis de outrora [os quatro irmãos] com os da atualidade. Muitos ainda vivem sob a glória do passado, enquanto penam sob a dura realidade do presente. E essa dualidade entre passado e presente, incide em algumas tomadas de decisões erradas, o que custam algumas vidas [qualquer semelhança com governantes atuais não é mera coincidência].
O diretor resgata acertadamente a Feiticeira Branca, numa participação pra lá de especial da sempre competente [e agora Oscarizada] Tilda Swinton. Existe algo nessa personagem e na atuação da atriz que faz com que eu me sinta extremamente desconfortável em fixar meus olhos nos dela. Detalhe: a aparição não está nos originais de C. S. Lewis, mas desempenharam muito bem o seu papel no filme.
Sem maiores questionamentos, a não ser os tradicionais como o valor da liberdade e a importância do respeito ao próximo [duvido que alguma criança vai pensar nisso quando se deparar com as bem orquestradas cenas de batalha], O PRINCIPE CASPIAN é um filme seguro e ótimo entretenimento [só acho que o corte final deveria ser um pouco menor já que quase alcançamos a marca das duas horas e emeia].

Sunday, November 16, 2008

Spedd Racer (Idem, EUA, 2008, 135 min.).

Direção: Andy Wachowski e Larry Wachowski
Roteiro: Andy Wachowski e Larry Wachowski, baseado em série de TV criada por Tatsuo Yoshida
Elenco: John Goodman, Susan Sarandon, Emile Hirsch, Christina Ricci, Matthew Fox e Roger Allam.

SPEED RACER é um filme poderoso. Pelo menos para mim.
Quando eu li na revista SET sobre o filme, senti na hora que eu deveria assisti-lo. Fui até a locadora e aluguei-o. Passei minha tarde de domingo vendo-o e, acredite, eu achei tudo formidável.
Não me recordo do desenho animado, mas tenho alguns flashes do mesmo na memória. Talvez por ser pequeno demais, ou sei lá. O fato é que tramas envolvendo corridas nunca mexeram muito com o meu imaginário. Mas com SPEED RACER foi totalmente diferente.
Speed Racer (Emile Hirsch) é um jovem extremamente rápido nas pistas de corrida. Nascido para competir, Speed é agressivo, instintivo e destemido ao volante. O único oponente à sua altura é a lembrança de seu falecido irmão, o lendário Rex Racer, o qual idolatrava. Quando Speed dispensa uma lucrativa e tentadora oferta da empresa Royalton Industries isto deixa o dono da companhia, Royalton (Roger Allam), furioso. Logo Speed faz uma importante descoberta: que os resultados de algumas das corridas mais importantes da temporada são pré-determinadas por um grupo de magnatas impiedoso, que manipula os principais corredores para aumentar seus lucros. Com isso a única maneira de Speed salvar os negócios da família é derrotando Royalton em seu próprio jogo. Para tanto ele recebe a ajuda de Trixie (Christina Ricci), sua fiel namorada, e se junta ao seu antigo rival, o Corredor X (Matthew Fox), para enfrentar o mortal rally, que tirou a vida de seu irmão tempos atrás.
É um filme típico de Sessão da Tarde, só que feito para os anos 2000.
Muito criticou-se o visual adotado pelos irmãos Wachowski, que abusa das cores, da arte gráfica, dos cenários virtuais e da ação desenfreada, muitas vezes lembrando os videogames. No entanto, toda a característica psicodélica não me pareceu má escolha. Ao ver o filme, não consigo concebê-lo sendo realizado de outra forma. Está no tom certo. A crítica disse que chega a cansar os olhos e que as cenas de corridas, que no início parecem ser a grande novidade, terminam por ficarem enfadonhas. Eu discordo plenamente. Creio que a ação está de bom tamanho e não me cansei um único momento. Muito pelo contrário: cravei minhas mãos no sofá de extremo nervosismo e ansiedade, especialmente na seqüência do rally Casa Cristo. Realmente, de tirar o fôlego.
Apesar do virtuosismo técnico dos Wachowski, que mais um vez mostram que são mestres na ação mesclada com uma boa história, a narrativa é fantástica. O drama familiar está presente e os atores seguram muito bem esta parte. Emile Hirsch convence como o herói que se empenha em salvar os negócios da família e luta para sair da sombra do irmão falecido. Goodman consegue alternar com maestria momentos de drama e humor. Sarandon faz a mãe que todo nós gostaríamos de ter. Ricci surge como a ótima namorada, aquela que vai com você até o inferno se for preciso. E Fox, bom, ele é nosso bom moço, que se empenha em auxiliar Speed e esconde um segredo ainda mais emocionante, que flerta com o herói trágico das antigas peças gregas.
Destaque para a trilha sonora criada por Michael Giachino. Sabe ser dramática quando é solicitada e serve como ótimo fundo para as mirabolantes corridas.
Minha única crítica vai para o subplot do roteiro em relação às guerras corporativas e a presença de um corredor asiático [uma nítida tentativa de conquistar ainda mais o mercado chinês e afins]. Simplesmente desnecessário.
Com importantes lições sobre a união familiar em detrimento dos negócios corporativistas, a necessidade de nunca desistir dos sonhos, SPEED RACER é um filme para toda a família, que vai emocionar aqueles que estiverem abertos para uma boa história.

O guia do mochileiro das galáxias (The Hitchhiker's Guide to the Galaxy, EUA, 2005, 110 min.)

Direção: Garth Jennings
Roteiro: Douglas Adams e Karey Kirkpatrick, baseado em livro de Douglas Adams
Elenco: Sam Rockwell, Anna Chancellor, Warwick Davis, Mos Def, John Malkovich, Zooey Deschanel e Martin Freeman.

Sou uma pessoa simples. Embora muitos não me tenham como tal, é extremamente fácil me agradar. Completei 26 anos há duas semanas e, um pouco antes da data, percebi que alguns amigos estavam com dificuldades em decidir o que me dar de presente. Todos os anos, invariavelmente, eles se reúnem e me presenteiam com uma ou duas camisetas. Levando em consideração a quantidade absurda de camisetas que acumulei nos últimos anos e o valor expressivo que cada peça custa [algumas chegam à absurda quantia de R$ 50,00], falei a eles que, ao invés de roupas, me dessem livros. Então, elaborei uma lista com os meus principais desejos de consumo em livros. No meio desta lista, estava a coleção criada por Douglas Adams, “O guia dos mochileiros das galáxias”.
Já tinha tomado conhecimento da série particularmente pelo filme de mesmo nome lançado em 2005 [e tema desta resenha]. Mas foi com meu amigo de faculdade, Lucas, que o meu interesse pela obra de solidificou.
No dia do meu aniversário, fui agraciado com o quarto volume da série: “Até mais, e obrigado pelos peixes” e, alguns dias depois, corri à locadora para alugar o filme. [ah, aproveitei um vale desconto que recebi de uma livraria por conta do meu aniversário e adquiri os demais volumes].
A sinopse do filme é bastante nonsense: Arthur Dent (Martin Freeman) é um homem normal, que está tendo um péssimo dia. Após saber que sua casa está prestes a ser demolida, Arthur descobre que Ford Prefect (Mos Def), seu melhor amigo, é um extra-terrestre e, para completar, fica sabendo que a Terra está prestes a ser destruída para que se possa construir uma nova auto-estrada hiperespacial. Sem ter o que fazer para evitar a destruição de seu planeta, Arthur só tem uma saída: pegar carona em uma nave espacial que está de passagem. Ele passa então a conhecer o universo, sendo que tudo o que precisa saber sobre sua nova vida está contido em um valioso livro: o Guia do Mochileiro das Galáxias.
Parece um daqueles filmes que cansamos de ver na Sessão da Tarde, né? E é mais ou menos isso mesmo. É extremamente divertido e bem humorado. Os diálogos são ótimos e afiados. As sacações em relação à Terra e ao Universo são especialmente hilárias.
Uma coisa que me chamou a atenção no filme é a forma como os produtores utilizam os efeitos especiais. Embora estes sejam fundamentais na ambientação do espaço, todos os demais elementos foram construídos de maneira artesanal. A última vez que presenciei um trabalho manual tão minucioso foi com “O labirinto do fauno”. Em “O guia...”, os efeitos só entram em ação quando é inviável traduzir os aspectos de outra forma. Assim, vemos atores contracenando com bonecos reais e não com o nada.
Aliás, o roteiro é um destaque a parte. Freeman consegue traduzir toda a personalidade pacata de Dent e Deschanel convence como moça estranha. O destaque vai para Rockwell. Tenho a impressão que ele atuou a base de lisérgicos e muito álcool. Mas, o grande charme do filme é para a personificação de Marvin, o robô maníaco-depressivo.
Dificilmente eu falo sobre os extras de DVD, mas os desse filme valem a pena. Além de um bacana making-of, somos presenteados com cenas inéditas feitas, não para o filme, mas para os extras, e as cenas deletadas mesmo. Outro achado é Gerenciador de Improbabilidade. Na versão dublada, o narrador ganha a voz sempre sarcástica e irônica de José Wilker.
Para quem quer se divertir com um bom filme e não ficar com aquela cara de que foi enganado por algo sem neurônio, “O guia...” é uma ótima dica. Ah, e se puder, leia o livro depois.

Saturday, November 15, 2008

Clube da luta (Fight Club, EUA, 1999, 140 min.)

Direção: David Fincher.
Roteiro: Jim Uhls, baseado em livro de Chuck Palahniuk
Elenco: Edward Norton, Brad Pitt, Helena Bonham Carter e Jared Letto.

Já tinha visto CLUBE DA LUTA em outra ocasião. Na época, eu era relativamente jovem, mas já senti o impacto do filme em minha vida. Era algo que me incomodava e muito. Alguns anos depois, acabei revendo a visão do diretor David Fincher e percebi que o incomodo permanece. Acredito que o causa tanto incômodo em mim seja a possibilidade de algum dia eu me tornar radical quanto o personagem do Edward Norton e partir para a violência como única forma de sobreviver às agruras do capitalismo.
Sobre o filme: Jack (Edward Norton) é um executivo yuppie que trabalha como investigador de seguros de uma grande montadora de automóveis. Ele vive muito confortavelmente, mas está em doideira progressiva e, para driblar suas crises de insônia, extravasa sua ansiedade em sessões de terapia grupal, ao lado de gente com câncer, tuberculose e outras doenças, pois é só no meio de moribundos que Jack se sente vivo e assim consegue dormir. Sua alegria só é interrompida pela chegada de Marla Singer (Helena Bonham Carter), uma viciada em heroína com idéia fixa de suicídio. Repentinamente entra na sua vida Tyler Durden (Brad Pitt), um cara ainda mais maluco que Jack. Eles se conhecem em um vôo e mal se falam, mas quando o apartamento de Jack explode misteriosamente ele vai morar com Tyler, que vive em uma mansão caindo aos pedaços. Tyler lhe oferece uma perigosa alternativa: por à prova seu instinto animalesco em combates corporais. Assim nasce o clube do título, que ganha diversos adeptos que aliviam suas tensões arrebentando cada um a cara do outro. O clube tem algumas regras rígidas: 1) Você não fala sobre Clube da Luta, 2) Você não fala sobre Clube da Luta, 3) Quando alguém disser "pare" ou perder os sentidos a luta acaba, 4) Só dois caras em cada luta, 5) Uma luta de cada vez, 6) Sem camisa, sem sapatos, 7) As lutas duram o tempo, que for necessário, 8) Se essa é a sua primeira noite no Clube da Luta, você tem, que lutar. Com o tempo, Tyler demonstra, que seus planos vão além da criação do clube, uma mania, que ganha adeptos no país inteiro e assim Tyler sonha em concretizar o seu "Projeto Caos".
Na vida é necessário sentir algo. O capitalismo automatiza comportamentos e sentimentos. Quebrar a barreira da mesmice, do achatamento, é o que nos impulsiona a mudanças. É isso que o CLUBE DA LUTA propõe com suas lutas metafóricas. Ao lutar, pelo menos alguém faz alguma coisa. O que o filme mostra é a necessidade de viver, de sentir algo (como dor), de perceber que a vida não é somente bens materiais. Você não é o que você possui.
No entanto, o Clube passa a ser muito mais que um local onde homens se esmurram. Transforma-se em uma organização terrorista, que atua contra os principais pilares do capitalismo. Acusado de ser influenciador de violência, acredito que só vê isso quem não compreende todas as camadas mais profundas do filme. Porque, quem compreende, percebe que este é um filme poderoso e ousado. Aliás, Fincher desponta como um dos diretores mais ousados de nossa geração.
Fora os virtuosismos de câmeras e da trilha sonora, destaque para as interpretações viscerais de Norton, Pitt e Carter. Cada um dos atores capta a essência apocalíptica de Fincher e dão o sangue em seus papéis.
A cena final dos prédios caindo funcionada como espécie de prelúdio dos atentados de 11 de setembro.
Enfim, um filme fundamental e um dos melhores da década passada.