
Direção: Billy Wilder
Roteiro: Charles Brackett, D.M. Marshman Jr. e Billy Wilder
William Holden, Gloria Swanson, Erich von Stroheim, Nancy Olson, Fred Clark, Lloyd Gough, Jack Webb e Cecil B. DeMille.
“Pronto, Sr. DeMille, eu estou pronta para o meu close-up”.
Não importa quantas vezes eu assista a CREPÚSCULO DOS DEUSES, eu sempre vou ficar em êxtase quando Norma Desmond proferir essas palavras ao descer as escadas de sua mansão e a câmera enquadrar em seu rosto insano.
Não sei o que acontece, mas este filme de Billy Wilder é extremamente importante para mim. Tenho uma identificação com a personagem de Gloria Swanson que chega a me deixar incrivelmente espantado. Como minha personalidade é bastante semelhante com a da atriz decadente, fico com receio de, na velhice, acabar me transformando nela.
O filme é um dos mais importantes de todos os tempos e mostra como a indústria cinematográfica pode ser cruel e desumana com aqueles que não lhe são mais úteis. Metáfora para a vida? Com certeza, ainda mais em uma época onde tudo é descartado e o prazo de validade é cada vez mais curto.
Sinopse: No início um crime é cometido e uma voz em off começa a narrar que tudo começou quando Joe Gillis (William Holden), um roteirista fugindo de representantes de uma financeira que tentava recuperar o carro por falta de pagamento e se refugia em uma decadente mansão, cuja proprietária, Norma Desmond (Gloria Swanson), era uma estrela do cinema mudo. Quando Norma tem conhecimento que Joe é roteirista, contrata-o para revisar o roteiro de Salomé, que marcaria o seu retorno às telas. O roteiro era insuportável, mas o pagamento era bom e ele não tinha o que fazer. No entanto, o que o destino lhe reservava não seria nada agradável.
Em 1950, seria difícil imaginar um filme que apresentasse uma Hollywood tão desglamourizada em um roteiro tão corrosivo. O diretor austro-húngaro foi corajoso ao expor a podridão da indústria, que joga fora aquele astro que não lhe serve mais. O mais fascinante de tudo, como já disse, é perceber a maneira precisa com que Billy Wilder quebrou com essa idéia inicial de apenas entreter para injetar doses cavalares e arrebatadoras de crítica social e um sarcasmo que fazia do cinema um meio de comunicação definitivamente importantíssimo e influente. Não que o diretor tenha sido pioneiro. Orson Welles também era sinônimo de inovação, vide seu soberbo Cidadão Kane (1941) e a sua famosa transmissão de rádio em 1938. Porém, o que Wilder conseguiu foi confrontar-se exatamente com o próprio conceito de glamourização que envolvia a corporação para a qual trabalhava e que dominava monstruosamente toda Hollywood, tanto como pessoa física quanto jurídica. E que, curiosa ou propositalmente, envolvia esta sua obra majestosa que talvez funcione como um profundo murro na cara para os inabaláveis ostentadores dessa pompa exagerada e imbecil que é a “fama a qualquer preço” ou como um sarcástico alguém que ri com sagacidade na e da cara destes seres plásticos.
Swanson estremece profundamente os alicerces dessa Hollywood alegórica e ilusionista, com sua Norma Desmond agindo de forma furiosa e macabra, vitimada por um sistema alienador que funciona como fabricante de astros, e não como um lapidador de talentos. Quando assiste melancolicamente a um dos seus filmes mudos juntamente com o roteirista Gillis (Queen Kelly, curiosamente conduzido pelo também diretor Erich von Stroheim) em certo momento da fita, fica transparecido na sua face um desgosto misturado a uma insanidade lôbrega que afeta, como uma escavadeira, as camadas mais profundas do cérebro. [ela foi indicada ao Oscar naquele ano, concorrendo com as deusas de “A Malvada”, Bette Davis e Anne Baxter. Por incrível que pareça, ganhou a insossa Judy Holyday, por “Nascida ontem”. Swanson contentou-se com o Globo de Ouro da categoria dramática]. Glória foi uma estrela do cinema mudo e que tal como as suas colegas passou as mesmas dificuldades na transição para o sonoro e à semelhança da sua personagem também ela tinha caído no esquecimento. Há uma magnífica cena em que Norma faz uma partida de bridge com alguns avtores veteranos [Buster Keaton, Anna Q. Nilsson ou H.B. Warner].
É um filme que mexe muito comigo. Sinceramente, tenho muito receio de ser alguém que passará o resto da vida aguardando um close-up final e este vier carregado da dor e da insanidade que abateu-se sobre Norma Desmond.
Roteiro: Charles Brackett, D.M. Marshman Jr. e Billy Wilder
William Holden, Gloria Swanson, Erich von Stroheim, Nancy Olson, Fred Clark, Lloyd Gough, Jack Webb e Cecil B. DeMille.
“Pronto, Sr. DeMille, eu estou pronta para o meu close-up”.
Não importa quantas vezes eu assista a CREPÚSCULO DOS DEUSES, eu sempre vou ficar em êxtase quando Norma Desmond proferir essas palavras ao descer as escadas de sua mansão e a câmera enquadrar em seu rosto insano.
Não sei o que acontece, mas este filme de Billy Wilder é extremamente importante para mim. Tenho uma identificação com a personagem de Gloria Swanson que chega a me deixar incrivelmente espantado. Como minha personalidade é bastante semelhante com a da atriz decadente, fico com receio de, na velhice, acabar me transformando nela.
O filme é um dos mais importantes de todos os tempos e mostra como a indústria cinematográfica pode ser cruel e desumana com aqueles que não lhe são mais úteis. Metáfora para a vida? Com certeza, ainda mais em uma época onde tudo é descartado e o prazo de validade é cada vez mais curto.
Sinopse: No início um crime é cometido e uma voz em off começa a narrar que tudo começou quando Joe Gillis (William Holden), um roteirista fugindo de representantes de uma financeira que tentava recuperar o carro por falta de pagamento e se refugia em uma decadente mansão, cuja proprietária, Norma Desmond (Gloria Swanson), era uma estrela do cinema mudo. Quando Norma tem conhecimento que Joe é roteirista, contrata-o para revisar o roteiro de Salomé, que marcaria o seu retorno às telas. O roteiro era insuportável, mas o pagamento era bom e ele não tinha o que fazer. No entanto, o que o destino lhe reservava não seria nada agradável.
Em 1950, seria difícil imaginar um filme que apresentasse uma Hollywood tão desglamourizada em um roteiro tão corrosivo. O diretor austro-húngaro foi corajoso ao expor a podridão da indústria, que joga fora aquele astro que não lhe serve mais. O mais fascinante de tudo, como já disse, é perceber a maneira precisa com que Billy Wilder quebrou com essa idéia inicial de apenas entreter para injetar doses cavalares e arrebatadoras de crítica social e um sarcasmo que fazia do cinema um meio de comunicação definitivamente importantíssimo e influente. Não que o diretor tenha sido pioneiro. Orson Welles também era sinônimo de inovação, vide seu soberbo Cidadão Kane (1941) e a sua famosa transmissão de rádio em 1938. Porém, o que Wilder conseguiu foi confrontar-se exatamente com o próprio conceito de glamourização que envolvia a corporação para a qual trabalhava e que dominava monstruosamente toda Hollywood, tanto como pessoa física quanto jurídica. E que, curiosa ou propositalmente, envolvia esta sua obra majestosa que talvez funcione como um profundo murro na cara para os inabaláveis ostentadores dessa pompa exagerada e imbecil que é a “fama a qualquer preço” ou como um sarcástico alguém que ri com sagacidade na e da cara destes seres plásticos.
Swanson estremece profundamente os alicerces dessa Hollywood alegórica e ilusionista, com sua Norma Desmond agindo de forma furiosa e macabra, vitimada por um sistema alienador que funciona como fabricante de astros, e não como um lapidador de talentos. Quando assiste melancolicamente a um dos seus filmes mudos juntamente com o roteirista Gillis (Queen Kelly, curiosamente conduzido pelo também diretor Erich von Stroheim) em certo momento da fita, fica transparecido na sua face um desgosto misturado a uma insanidade lôbrega que afeta, como uma escavadeira, as camadas mais profundas do cérebro. [ela foi indicada ao Oscar naquele ano, concorrendo com as deusas de “A Malvada”, Bette Davis e Anne Baxter. Por incrível que pareça, ganhou a insossa Judy Holyday, por “Nascida ontem”. Swanson contentou-se com o Globo de Ouro da categoria dramática]. Glória foi uma estrela do cinema mudo e que tal como as suas colegas passou as mesmas dificuldades na transição para o sonoro e à semelhança da sua personagem também ela tinha caído no esquecimento. Há uma magnífica cena em que Norma faz uma partida de bridge com alguns avtores veteranos [Buster Keaton, Anna Q. Nilsson ou H.B. Warner].
É um filme que mexe muito comigo. Sinceramente, tenho muito receio de ser alguém que passará o resto da vida aguardando um close-up final e este vier carregado da dor e da insanidade que abateu-se sobre Norma Desmond.
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